Friday, December 12, 2025

Texto de sala para a exposição "Alarme" de Rudi Brito



Texto de sala para a exposição de Rudi Brito.


Sinto-me alarmada. Algo da minha vida pessoal, um sentimento de fatalidade, um destino. Ainda não tinha visto as pinturas, nem sabia o nome da exposição; por isso poderíamos tomar isto por uma coincidência. No entanto, depois de observar as pinturas, percebo que aqui o acaso é essencial.

Uma pinga de tinta saltou para ali, uma sombra projectou-se do outro lado, uma lasca ficou de pé, outra tombou. A mão moveu-se para criar com forte intenção e, ao mesmo tempo, de forma cega, conduzindo este fogo-de-artifício de acasos que assumem variados papéis neste teatro simultaneamente intimista e épico. A coincidência é a matéria-prima. É aquilo que a energia, a intenção e o destino encarnam.

Os quartos absorvem totalmente a energia dos seus ocupantes, e quando se entra no quarto de alguém é como se entrássemos não só na sua mente, mas na sua energia. Do mesmo modo, as pinturas são portas para quartos onde o espectador pode entrar. Habitamos assim a matéria — com a frustração do espírito, que se sente oprimido e retido naquele invólucro corporal, enquanto a matéria também se queixa, subjugada e possuída por espíritos parasitas.

Quando entramos, vemos quadros numa sala forrada a madeira. À primeira vista, as pinturas mostram quartos comuns — com cama, mesa e cadeiras. Mas, ao aproximarmo-nos, dando tempo ao olhar, começamos a ver entre as linhas: as paredes da galeria revelam-se pele sardenta, com a cor invertida das constelações; e, nas pinturas, surgem personagens embutidas em tudo aquilo que pareciam ser formas banais do quotidiano, mas que afinal são autênticos devaneios.

Progressivamente, diante de nós, instala-se a vertigem dos fractais e da infinita multiplicidade das imagens. Neste passeio abissal, percebemos suspeitos padrões que espreitam e se repetem numa frequência particular. Essa repetição infinita e inescapável provoca um pressentimento de cilada, fatalidade e alarme.

Talvez o mundo invertido não seja apenas um conceito para livros ou séries de terror televisivo. O mundo oculto habita estes quartos, mas permanece contido nas subtilezas do mundo comum. Já nas suas costas estão os quadros do reino invertido, onde o símbolo governa. São o outro lado da carta: o espaço dos sonhos, da noite contraposta ao dia, onde os ícones, os deuses ou os demónios se assumem e gritam os segredos outrora escondidos nas paredes.

Um pesado cálice sagrado, uma hipnótica loiça fria de prata. Destacam-se como rei e rainha, ou como dois buracos negros — tão centrais e invisíveis como dois “elefantes na sala”. As pinceladas e raspagens de luz brilham como detritos espaciais que gravitam e se precipitam de volta destas estrelas obscuras, sobre um fundo de escuridão tão vazio quanto animado.

E, ainda assim, perante esta tempestade ancestral, abismal e trágica, podemos encontrar um ponto de fuga — talvez o mesmo centro que há pouco tanto nos alarmava. E, a partir desse “olho do furacão”, observar, em silêncio, a infinita beleza, criatividade e sincronismo deste espectáculo. Olhar para as cabeças vermelhas que rolam e perceber como realçam tão perfeitamente o verde das flores e de Neptuno.


 

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